A Amor Luso não é apenas uma empresa ou um projeto mas acima de tudo um sonho de ideias e de uma aspiração futuro. Acontece que chegou o momento de partilhar o pensamento e jornada. Isto com a esperança de encontrar mais opiniões e críticas que possam ajudar a enriquecer uma caminhada e expandi-la. A ideia ter uma espécie de blog tradicional a varias vozes, hoje será a minha.
Chamo-me Vítor e sou um dos criadores da Amor Luso. Hoje, mais do que apresentar produtos, quero partilhar uma inquietação e um novo rumo. Sinto, como muitos, que vivemos um paradoxo. Dizem-nos que crescer é o único caminho, mas a terra (a nossa casa), o ponto de partida e chegada, ensina-nos que tudo tem um limite. E nesses limites reside, no meu ponto de vista, todas as soluções e sabedoria, logo é apenas sobre isso que quero falar.

Trazendo isto para a realidade Amor Luso, que nasceu deste amor pela terra por um lugar de vida, e para ser verdadeiro, não pode crescer indefinidamente, porque isso significaria esgotar aquilo que mais amamos. Não podemos, nem queremos, crescer sem pensar na realidade local, na capacidade dos nossos ecossistemas e na saúde da nossa comunidade. A nossa base sempre foi as parcerias locais, mas sentimos, com crescente inquietação, que o mundo à nossa volta se fecha em si mesmo e acaba por ser uma sequência natural.

O desafio social
Deparamo-nos com uma nova solidão, a da montra global. As redes sociais, que prometiam conectar-nos, tornaram-se palcos onde cada um representa a sua peça para um público anónimo e distante. As pessoas com atividades locais relevantes preferem expôr as suas vidas ao mundo virtual do que aos seus vizinhos, porque é assim que encontram um tipo de reconhecimento e claro um retorno financeiro, que é mais um modelo de dependência (escravatura capitalista) . Trocou-se a complexidade de uma relação de proximidade pela simplicidade de um “like” ou “reel” que diz tudo. Esta lógica permeia o tecido comunitário e comercial, onde a vontade de trabalhar a rede social de proximidade, a que verdadeiramente nos sustenta, se desvanece. Vemos o comércio local preocupado em ter o produto da moda, importado e anónimo, em vez do produto que cumpre a sua função da melhor forma e com o menor impacto possível. Vemos lojas a granel, bastiões do consumo consciente, a oferecer dez marcas para o mesmo fim, quando os produtores locais são suficientes e esperam pela paciência de quem vende em ter um pequeno esforço em manter a sua própria bandeira. Sei que é dificil, é uma verdadeira luta de realidade, consciências e tempo. Perante esta realidade, poderíamos continuar a seguir o fluxo mas isso seria trair a nossa essência.
É por isso que declaramos, com a serenidade dos que conhecem o seu rumo, que a Amor Luso está num processo introspectivo para uma reorientação. Na qual estamos a procurar a nossa génese porque sentimos que o desvio estava a ficar incomportável. Sabemos da implicações e riscos do processo e que será um processo árduo por isso será gradual e sereno.
Para além deste reorientar de rumo na área de cosmética e bem estar, vamos expandir o nosso fluxo de intervenção, isto numa lógica mais aguerrida em valores e densidade.

Oficina da terra
Sou designer de formação, com muitos anos de experiência diversa, e antes mesmo da Amor Luso, a minha paixão já se materializou no projeto “Deste Lado do Mundo”, onde investigava o artesanato, a agricultura e o comércio tradicional como formas de resistência e de valorização da nossa identidade.
Vamos trabalhar mais ativamente com agentes locais, como associações e comunidade em geral. Na verdade, será mais um salto em frente, um ato de aprofundamento. Para travar esta luta, vamos trazer novas energias e desafios . Esta nova fase é a evolução natural desse caminho, a união de todas as minhas paixões sob o mesmo trilho.
Juntam-se, três novas formas de manifestar o nosso amor pela natureza: o barro (a base de tudo), a vegetação com a madeira e a expressão humana com a tipografia e comunicação. Surgindo a “Oficina da terra”, onde vamos transformar problemas em soluções simples. Não vou avançar mais na forma para deixar espaço para a imaginação e não limitar os processos naturais mas quem conhece a Amor Luso sabe que já criei muitas das ilustrações, saboneteiras e difusores em madeira, apenas não assumia a autoria.
A força motriz por trás de tudo isto, para além do meu amor pela natureza e pela vida, é a mais simples e poderosa de todas. Sou pai de quatro filhos fantásticos. Eles são os meus verdadeiros projetos de vida, a minha bússola e energia. Não pela responsabilidade social ou muito menos financeira mas no pensar no mundo que lhes vou deixar, assim como a todas as gerações futuras. A minha energia é catalisada por eles, pela responsabilidade e pelo privilégio de lhes poder mostrar que é possível viver de outra forma.
Na verdade Amor Luso é apenas um pretexto ou convite para abrandar, para olharmos para nós próprios, no que temos à nossa volta, e para participarmos neste ciclo virtuoso da vida em que o tempo é o nosso maior bem. É a nossa forma de dizer que o verdadeiro progresso, por vezes, é saber voltar a casa.
Este é um desafio enorme e não podemos estar sozinhos, precisamos de todos connosco. Por isso, convido-vos a fazerem parte desta jornada, comentem com as vossas críticas e partilhem as vossas próprias inquietações. A Amor Luso é, e será sempre, um espaço aberto para construir este futuro em conjunto.